Quando uma criança recusa um alimento, aceita poucas opções ou insiste sempre nas mesmas comidas, é comum que a família defina rapidamente a situação como seletividade alimentar. Mas nem toda dificuldade para comer tem a mesma origem, e compreender o que está acontecendo é parte importante do cuidado.
Esse é o tema do novo episódio do Programa Acolher. Os Drs. Renato Coelho e Ricardo Sukiennik recebem a terapeuta ocupacional Thaís Bueno para discutir as dificuldades alimentares no Transtorno do Espectro Autista (TEA) e os diferentes fatores que podem estar envolvidos na relação com a comida.
A conversa parte de conceitos básicos, como fome, saciedade e hábitos familiares, e avança para questões relacionadas à rotina, ao processamento sensorial, às habilidades motoras e ao comportamento.
Recusa, restrição e seletividade não são a mesma coisa
Uma das primeiras questões abordadas no episódio é a necessidade de compreender o que realmente está acontecendo antes de classificar toda dificuldade alimentar como seletividade.
A recusa, por exemplo, pode acontecer por diferentes motivos. Em alguns momentos, a criança simplesmente pode não estar com fome. Em outros casos, a recusa persistente pode estar relacionada a experiências alimentares negativas, alterações do paladar, hábitos ou outros fatores que precisam ser investigados.
A restrição alimentar, por sua vez, refere-se à adoção de uma alimentação específica para atender determinadas necessidades, como alergias, intolerâncias, condições clínicas ou escolhas alimentares.
Já na seletividade, características específicas dos alimentos podem exercer um papel importante na aceitação ou na rejeição.
Por isso, entender a origem da dificuldade faz diferença na escolha das estratégias.
Quando textura, cheiro e aparência causam desconforto
No TEA, alterações no processamento sensorial podem influenciar diretamente a alimentação.
Textura, cheiro, sabor, aparência, temperatura e consistência podem fazer com que determinados alimentos provoquem um desconforto significativo. Algumas pessoas, por exemplo, podem aceitar melhor alimentos secos e rejeitar preparações com molho. Outras podem reagir fortemente a determinadas cores, aromas ou consistências.
Nesses casos, simplesmente forçar a ingestão pode não ser uma estratégia adequada, sendo importante compreender os fatores envolvidos na dificuldade.
A orientação discutida no episódio é compreender primeiro quais fatores estão provocando aquela resposta para, então, construir um plano adequado às necessidades daquela pessoa.
Alimentação também envolve habilidades motoras
Comer parece uma atividade automática, mas envolve uma série de habilidades.
Sentar-se adequadamente, alcançar o alimento, utilizar as mãos ou os talheres, levar a comida até a boca, movimentar a língua e mastigar exigem organização corporal, coordenação e planejamento motor.
Por isso, uma dificuldade alimentar também pode estar relacionada à forma como a pessoa executa essas ações, e não apenas ao alimento que está no prato.
Observar como a criança se posiciona, utiliza os utensílios e mastiga ajuda a ampliar a compreensão sobre o problema.
O que é higiene alimentar?
Outro conceito destacado no episódio é o de higiene alimentar, entendido como um conjunto de hábitos e rotinas que ajudam a organizar o momento das refeições.
Isso inclui estabelecer horários, realizar as refeições em um local adequado e criar um período protegido de interferências externas.
Televisão, tablet e celular podem fazer com que a atenção esteja direcionada para outro estímulo, e não para a alimentação e para as interações que acontecem à mesa.
A própria rotina familiar também tem importância. Crianças observam e aprendem com os adultos, inclusive na forma de sentar à mesa, utilizar os utensílios e experimentar os alimentos.
Mais do que fazer a criança comer “a qualquer preço”, a proposta é construir progressivamente uma relação mais organizada com aquele momento.
Forçar, negociar ou recompensar resolve?
Diante da preocupação de que a criança não esteja comendo o suficiente, é compreensível que famílias tentem diferentes estratégias.
Negociar cada colherada, utilizar recompensas ou insistir para que a criança coma podem fazer parte de estratégias utilizadas pela família, mas é importante compreender o que está por trás da dificuldade alimentar.
O episódio reforça a importância de evitar a ingestão forçada e compreender primeiro por que aquela dificuldade está acontecendo.
Quando existe uma questão sensorial, motora ou comportamental, por exemplo, é essa origem que precisa ser trabalhada.
Antes da estratégia, vem a avaliação
Não existe uma única técnica que funcione para todas as pessoas com dificuldades alimentares.
Uma criança pode rejeitar um alimento por sua textura. Outra pode ter dificuldades motoras. Outra pode ter construído determinados hábitos ao longo dos anos. E diferentes fatores ainda podem aparecer ao mesmo tempo.
Por isso, a avaliação considera tanto a criança quanto sua história familiar e alimentar: como foi a introdução dos alimentos, quais são as rotinas da casa, como acontecem as refeições, quais alimentos são aceitos, quais são rejeitados e quais comportamentos aparecem nesse processo.
A partir dessa compreensão, profissionais podem definir quais intervenções realmente fazem sentido para aquele caso.
Temas abordados no episódio:
• Fome e saciedade;
• Hábitos alimentares da família;
• Autonomia durante as refeições;
• Higiene alimentar e construção de rotina;
• Uso de televisão, tablet e celular durante as refeições;
• Diferenças entre recusa, restrição e seletividade alimentar;
• Alterações sensoriais relacionadas à alimentação;
• Texturas, cheiros, sabores e aparência dos alimentos;
• Motricidade, coordenação e planejamento motor;
• Uso de talheres e mastigação;
• Estratégias que devem ser evitadas;
• Avaliação das dificuldades alimentares;
• Possibilidades de acompanhamento terapêutico;
Mais do que ampliar a quantidade de alimentos no prato, compreender as dificuldades alimentares exige olhar para a pessoa como um todo.
Para famílias, cuidadores e profissionais, identificar o que está por trás da recusa é um passo importante para construir momentos de refeição mais organizados, prazerosos e acolhedores.
Assista ao episódio completo:
Conteúdo de caráter informativo. Não substitui a avaliação de um profissional de saúde habilitado.





